sem título
O site wannasurf tem uma caracteristica muito interessante. Representa perfeitamente a democratização do acesso à divulgação. Muitas vezes (ainda hoje) as revistas foram acusadas de desvendar spots atraindo os viajantes sobre os mesmos. Ora nos dias de correm, nenhuma revista tem (ou teve) o impacto ou quantidade de informação que um site como o wannasurf possui. E é feito por anónimos desinteressados, a maioria das vezes locais dos picos. Nos comments cruzam-se informações sobre as ondas em questão e localizações específicas. Isto não é feito por nenhum guia editorial ou revista da especialidade. É produzido por toda a gente e revelador do espírito de viagem e de partilha das sensações que no fundo caracteriza melhor os desportos de ondas.Poderiamos dizer o mesmo da fotografia. Inicialmente acusada de fomentar o crowd(?) e expôr publicamente o mar(?) chegou a níveis nunca antes vistos com a internet. Um termo muito usado hoje em dia é "banalização da imagem" pela quantidade monstruosa de fotografias que a net colocou á disposição. Por todo o lado publicam-se fotos, partilham-se imagens e a solicitação é generalizada. Já não se pode falar de uma classe "fotografos" porque na realidade já não existe. Toda a gente possui maquina e regista aqui e ali os momentos do dia a dia.
O wannasurf é uma optima enciclopédia de informação e um bom guia mas nunca o uso. Não acho ético quando se aplica a sitios que não são do conhecimento geral, mas especialmente porque prefiro a surpresa. As fotografias também acho-as optimas e a sua partilha, no entanto já tive de pedir por mais de uma ocasião para não usarem fotos minhas. A razão disso explico-a no último paragrafo.
Mas acima de tudo respeito a liberdade individual de cada um e não pretendo nem um pouco mudar a natureza das coisas. Elas são positivas e correctas, e só na mão de personalidades mal formadas é que descambam. Mas isso faz parte de estarmos numa sociedade livre e de pudermos fazer opções. Ainda bem.
Porque cada um pode por isso também construir a sua realidade, pode acrescentar um bocado mais de soul, de desportivismo, de sonho, de tudo o que queira. Cada homem na verdade encerra um mundo em si e se a realidade se apresenta muitas vezes adversa aos nossos olhos é talvez porque erradamente a queremos á nossa imagem. As opções existem.
*Democracia na ponta dos dedos
O bodyboard tem um clima curioso e muito característico. É um desporto que os seus praticantes e entusiastas partilham mas que ao mesmo tempo vão construindo. É um meio livre, mais livre que outros desportos arrozados de estereótipos e clichés em que as pessoas se vão encaixando conforme a personalidade. Vive-se no bodyboard uma espécie de caos saudável que só é explicável pela falta de agentes económicos preponderantes. É ainda felizmente uma infancia feliz ser bodyboarder e ter nas mãos a capacidade de se formar enquanto tal. Qualquer acção indivídual pode ter por isso um uma importãncia que a ultrapassa em si própria. É por isso que nesta cultura underground surgem tantos mitos e personagens, uns mais efabulados, mas todos com uma natureza eminentemente mundana, plausível a qualquer um. Alguns dos maiores mitos dos últimos tempos foram acontecimentos como o blindboy e a sua estadia na Ericeira, a procura pela onda impossível da sanguessuga, as rivalidades fratícidas entre o Porto e a Póvoa, ou mesmo a infâmia do episódio da maior onda surfada em portugal. O bodyboard fervilha de pequenos episódios aos quais não é alheio o envolvimento de todos numa espécie de teia global em que cada um tem uma palavra a dizer. Mas o episódio que vos quero falar é outro, do homem (do mar) que pelas suas palavras seria o que menos desejaria protagonismo, mas que pelos desenvolvimentos correntes viu-se transformado (in)voluntáriamente em autêntico ícone pop do momento. Surpreendido? não, é o bodyboard
O rei de Teahupoo
Há uma década que a rotina de Simon Thornton tem sido fixada em função de um acontecimento: apanhar teahupoo grande e perfeito. Desde que conheceu aquela onda a sua vida sofreu uma viragem num sentido muito preciso. Durante a maior parte do ano ele trabalha na Australia em empregos ocasionais e quando as previsões estão boas ele voa para o Tahiti. É por assim dizer o epiteto do bodyboarder livre. Por curiosidade chegou a partilhar o mesmo swell que os tugas do psico tour. Neste dia 15 de Abril ele estava lá de novo, e como em muitas ocasiões, a maior parte delas indocumentadas, a bomba do dia tinha o nome dele.
"ladrões de espectaculos"
uma irreprimível vontade fisiológica
"É certo que só acredita em jornais quem nunca leu uma notícia sobre si próprio. E eu só vou acreditar em revistas de surf quando ler uma entrevista em que à pergunta clássica de "quando decidiste tornar-te surfista?" não vir respostas idílicas sobre a paixão do surf ao pôr do sol, ou a surfada ideal num dia glass num spot misterioso com uns amigos e umas amigas que não dropinam ninguém. No dia em que alguém responder que foi ao verificar que uma irreprimível vontade fisiológica demonstrou que não era preciso ter dinheiro para um fato 4/3 topo de gama para se sentir um reconfortante calor que permitia aguentar o treino de inverno, então eu vou acreditar em revistas e sites de surf."Henrique pereira dos Santos na revista freesurf.
Foto Mickey Smith
loucura ou realidade?
"Prevejo algo parecido com as estâncias de neve. No principio eram só meia dúzia de malucos que subiam as montanhas a pé, hoje são milhões espalhados pelos quatro cantos do mundo, que pagam para utilizar as montanhas e os meios mecânicos.Daqui a 10/20/30 anos, para surfares na tua praia, terás que comprar forfait e sempre que terminares uma onda, estará uma mota à tua espera, para te rebocar de volta ao pico."
Por estranho que pareça parece-me uma ideia mais sã do que esta própria foto.
lógico

Em toda a nossa costa as pessoas que interessadas queiram tomar contacto com as ondas e o mar, tropeçam numa escola de surfe. Num país com o nosso mar e com a disposição de modalidades que temos, não há qualquer acompanhamento para quem queira usufruir do oceano por outras "vias".
De novo fica decidida a demografia das ondas para o futuro por vias do capitalismo puro. De novo os bodyboarders indagar-se-ão de como inverter esta tendência pelos campeonatos, as ondas, as imagens nos média e tal.
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