gostar de ver

Outro dia, um programa muito interessante na rtp2 (a tal que vai fechar) sobre neurociências, tentava explicar a razão pela qual as pessoas gostam de ser espectadores. Claro que pensei logo em bodyboard e elevei o volume...

Para além do entretenimento há uma explicação biológica para a qual as pessoas prescindam muitas vezes da actividade em si para apreciar um pouco do desporto mais praticado em todo o mundo: o de sofá. A razão parece estar numa parte especial do cérebro mais especificamente nos neurónios-espelho. Estes neurónios estão especialmente activos quando observamos alguém a concretizar uma acção. Através deles estamos não apenas a "ver" mas também a "fazer" visto que neurológicamente não há grandes diferenças entre estas duas acções. Quer isto dizer que quando paramos para ver o pitaça a mandar um invert daqueles também no fundo estamos a partilhar tudo o que o envolve. Obrigado pitaça.

Por outro lado estes neurónios parecem ter um papel importante na aprendizagem. Quanto mais atenção damos a observar um comportamento mais provavelmente vamos imita-lo. Isto explica a massificação de churchills nos últimos anos mas também traz alguns problemas inerentes: a proporção correcta entre o individual e a cópia. Infelizmente por experiência própria garanto-vos que ver filmes do hardy não vos vai fazer andar como ele, mas convém sempre guardar um espacinho para pensar que o bom disso é sermos todos obrigatoriamente diferentes.

mais info sobre os neurónios-espelho: aqui

grandes hits de 1927

"Já sei, pego na prancha e no fato
Sem me esquecer dos pés de pato
A próxima paragem é em casa do Max
Sempre o mesmo atrasado
Para ele o tempo nunca está controlado
É gera atrás de gera a movimentar a cena
É gera atrás de gera a corresponder à cena
Tudo com o mesmo "feeling", tudo com o mesmo "flow"
Chegado ao local, tudo a curtir o mesmo som
O tempo passa e não olhes para trás
Olha o pico triangular, tanto dá esquerda como direita
Manda-te que esta é perfeita
Este é o sítio, este é o local
Leça da Palmeira terra mais bonita de Portuga"l
Infelizmente posso dizer que o último post foi incompreendido. Entre lesa-pátrias e outras coisas a generalidade das interpretações não foi correcta por isso sinto-me na necessidade de o explicar mais sucintamente:

- nunca disse que o sintra pro não se deveria realizar.
- disse, sim, que certos heats não se deveriam realizar num grand slam. Nomeadamente aqueles onde o melhor bodyboarder do mundo não consegue fazer mais do que paredes na maior parte do heat.
- só vejo três maneiras de isso acontecer:
1- o período de espera é aumentado. praticamente impossível.
2- o número de heats é diminuído. praticamente impossível.
3- a etapa deixa de ter um carimbo (e exigências) grand slam. para mim a mais exequível das três possibilidades.

Dizer que a lotaria "é igual para todos" ou que os bodyboarders têm de entrar em todas as condições, nomeadamente aquelas onde nos recusamos a entrar é meter a cabeça na areia.
Assim como é pura ilusão achar que noutra praia mas com o mesmo formato as coisas correriam melhor.
O Sintra pro é um evento importante e de grande repercussão mediática não apenas em portugal, mas na europa e no resto do mundo. É também uma marca valiosa que demorou anos a construir e por isso não deve ser tratada com frivolidade.
No entanto as escolhas tomadas num grandslam reflectem-se na nossa comunidade e os danos ao amor próprio tem as suas consequências.


Como testemunho do feito que é meter um sintra pro em pé refira-se que nem com dois campeões do mundo a enorme França consegue concretizar um mundial no velho continente.

um passo atrás para dois à frente

A campanha anti Sintra pro teve hoje o seu momento alto com a degradação inenarrável das condições do mar. É uma pena, pois chega a ser comovente o empenho de toda a gente envolvida, atletas, organizadores, IBA e toda a equipa para que as coisas corram o melhor possível. No entanto o sancionamento do campeonato pela comunidade depende demasiado da sorte e da ventura dos elementos.

Existem muitos factores a concorrer para que haja sempre lugar para as criticas. Felizmente o sucesso do campeonato depende de outros factores mas em certos momentos como o heat hoje entre o Ben Player e o David Winchester, dois dos melhores executantes do mundo que mal um rolo conseguiam concretizar obrigam-me a passar para o outro lado das trincheiras. Aquele heat não deveria ter acontecido. Foi constrangedor. Nunca num grandslam.

Ao contrário do que se diz, não se trata do tamanho das ondas, o mundial de sintra tem sempre dias com bastante ondulação. Nem sequer da força das ondas, basta dizer que hoje os competidores fartaram de se queixar da dificuldade que era passar para o outside. É a formação. Tem dias que é má, seja pela direcção da ondulação, da maré, pelos fundos ou tudo junto, mas muito má.

A verdade é que isto não aproveita a ninguém, mesmo aos mais acérrimos opositores que julgam ganharem argumentos. Porque Sintra é necessária e extremamente positiva para o desporto. É uma lança nos media e na representação que a sociedade faz do desporto. E porque no fundo a escolha é entre Sintra ou nada. Existem algumas correntes iludidas que insistem em colocar alternativas mais ou menos fantasiosas de lugares onde se poderia organizar o campeonato em vez da Praia Grande. Nada indica que estas propostas possam ter o mínimo de consistência, antes pelo contrário.

Mas nada disto escamoteia o facto do campeonato ter lacunas estruturais significativas. É um bom espéctaculo? sim. Ambiente? memorável. Diversão? garantida. Mas não obstante metade dos competidores parece que está lá obrigada, um número significativo decide saltar fora e nas caixas de comentários sucede-se a chacota e a indignação.

Mas se o Sintra pro é um grand slam sofrível seria pelo contrário um qualifying excelente. Porventura o melhor qualifying do mundo. São as expectativas no fundo que matam à partida o campeonato. Tivesse um estatuto semelhante digamos a um US OPEN, sem implicações na classificação mas com relevância de topo a nível de  estrutura, público, prize money e o assumisse por completo, o êxito poderia ser superior ao actual. O mesmo retorno a nível de sponsors e um envolvimento superior com a comunidade. Um passo atrás para dois à frente?