tesourinhos deprimentes II


Da necessidade de um mito fundador

os mitos fundadores são fenómenos curiosos, primeiro como o nome indica de serem mitos, e depois a necessidade de serem mitos. A resposta a estas duas premissas é simples e prende-se com o facto da função de um mito fundador ser a de criar uma identidade imaginária, de criar união ou de criar afirmação. A primeira tarefa da historiografia moderna foi a precisamente estabelecer essas raízes fundacionais. Ninguém se interroga por exemplo porque é que os portugueses são os "lusitanos" ou os timorenses o "povo maubere". Porque assim foi estabelecido e porque cumpria a sua função. A verdade aqui não é substituta de um eufemismo romanceável e ninguém quer saber que os lusitanos tenham sido mais espanhois que portugueses ou os mauberes não existam e sejam um amontoado de tribos tão indonésias como as outras. É incrivelmente humano a necessidade de estabelecer uma identidade gregaria e simbolica que justifique a sua posição no presente. Agora, imaginemos que se descobria que os primeiros "surfistas" andavam nas ondas deitados ou sentados? que seria mais bodyboard ou kayak que propriamente surfe. Mas isso, não interessa a ninguém, especialmente ao surfocentrismo.

O lado negativo das identidades é que para além de serem imaginadas criam fronteiras também imaginadas, mas com barreiras muito reais. Se se estabelecesse que o surfe descende do acto de descer uma onda deitado, muitos dos preconceitos hoje pré estabelecidos em relação ao bodyboard deixariam de ter razão de ser e a segregação que o booguie tem nas marcas de surfe por exemplo passasse a ser apenas patética. Depois de ver o estado de espírito nos outros desportos a conclusão é de que o negócio que o surfe se tornou não deixa que seja de outra forma. Talvez com uma visão mais global do acto de descer uma onda, as pessoas passariam a experimentar diferentes maneiras de o fazer, e a usar diferentes veículos conforme as ondas. Mas isso vai contra o negócio.

Ora como raio haveria o surfe de justificar ser o desporto com maior nr. de praticantes? Pelo marketing agressivo? Pelo investimento bruto em imagem? Isso não é aceitavel. Outros argumentos encontramos frequentemente na prosápia surfistica como a do "desporto dos reis", a necessidade de uma descendência divina à imagem do que fez Camões com os lusíadas, ou mesmo o da antiguidade do desporto, o "mais antigo". Geralmente até se acusa o bodyboard de ser o desporto mais mundano e que invadiu as praias de praticantes, isto, quando 99% das escolas são de surfe.
Havia uma historia obviamente falsa que corria oralmente a até por algumas revistas, de que o bodyboard nascera de uma prancha de surfe partida. Por mais ridícula que fosse cheguei a ver desmentidos até na wikipedia. Este "rebaixamento fundador" foi sempre tão forte como o do mito, e o género de tactica usada pelos nossos primos para legitimar o inlegitimavel: que sao melhores que os outros. Para esses apenas tenho a dizer que o mais provavél, é o surfe apenas ser uma prancha de bodyboard mais comprida.




E nós simplesmente estamo-nos nas tintas para isso.

Outono II


Frio e cinzento. E outro tipo de prazer, estóico, quase masoquista. Faz-se o cálculo de quão bem saberá "depois de estar lá dentro". Cada vez mais entrar no mar é mais decisão que impulso.

nós e eles

Campeonatos na Venezuela, com ondas de alto nível, tem o seu preço..."

Pois, mas se andamos aqui a falar de rankings é graças à disponibilidade dos venezuelanos em receber o tour. Que eu saiba não anularam nenhuma prova no Hawaii ou Austrália para fazer a Venezuela.

Esse tipo de discurso faz-me lembrar os primeiros campeonatos mundiais de surfe cá em Portugal. Nessa altura era um fartote de fatos novos entre a malta. Presenciei as mais rocambolescas situações como roubar coisas de varandas ou furar tendas. Imagino o que diriam de nós.

o desvio à norma

Façamos o seguinte exercício. Dizer que um shortboard dropa mais fundo e entuba mais do que um longboard é inequivoco não é? Dizer que um skimboard surfa mais quebra-côcos é inquestionável certo? Falar que um kneeboard desenha as linhas mais fluídas dificilmente será alvo de contestação? E que é imensamente mais fácil apanhar uma onda com uma paddleboard?

Porquê o papel polémico do bodyboard nisto tudo? Porque é o desvio à norma. Não às normas da física, porque os factos são apuráveis empírica e cientificamente, mas às normas conceptuais. Ao enquadramento mental do que é e do que deveria ser.
E quando é induzido comercialmente mais idiota se torna.

o terror do bodyboard

Ainda sobre o post do Pedro Arruda: O blogue ondas é que eu me lembre dos mais antigos dedicados ao surfe e ao mar em geral. Apesar de ser escrito na totalidade por apreciadores do desporto surfe, sempre foi visitado por bodyboarders. Por vezes, especialmente durante campeonatos importantes, os posts sobre o surfe, os seus intervenientes e aspectos técnicos do desporto tomam conta do blogue, sem qualquer alteração dos seus leitores. Mas de cada vez, como fez o Pedro Arruda, se toma a ousadia de elogiar um desporto do qual até é praticante, cai o carmo e a trindade. Pelos vistos o bodyboard é suposto ser assunto tabú no mundo do surfe e só mencionado com o devido sinal da cruz e muito alho para os proteger da tentação. Qualquer tentativa de debate é logo silenciada à força do insulto, e as pressões são mais do que muitas para que o escriba Arruda se auto censure e não venha para ali, aquele sítio imaculado, falar de bodyboard.

leitura recomendada

O último post do Pedro Arruda. A parte dos comentários também é recomendada, mas para psicologos.

E a um passo de ser o maior competidor português de sempre*


O ano está a chegar ao fim e com ele o calendário competitivo. A uma etapa do fim o Português Manuel Centeno está em terceiro lugar do circuíto mundial.

*da federação Portuguesa de Surf

paisagem em movimento


São um elemento tão comum e familiar que por vezes passam-nos despercebidos como paisagem em movimento. No entanto acompanham-nos todo o ano e fazem dos areais a sua casa mesmo nos dias mais agrestes. Por vezes deitam-se na onda como nós.
Os habitantes mais antigos das praias Portuguesas usam pés de pato.

São a gaivota de asa escura e a gaivota de patas amarelas.

Sergi Alonso


Existem diferentes formatos nas competições desportivas, cada um com uma epistemologia especifica por tras dele sobre o que é que deveria ser o desporto. No geral as inovações que se foram introduzindo são por pressão dos mais fortes e visam diminuír o aleatório, o factor surpresa e conferir alguma racionalidade a este mundo. Quando o desporto foge do esperado há como que uma crise que se abate sobre o adepto, que procura apontar deficiencias e injustiças ao sistema. Quando aquela equipa marca no unico ataque que faz durante todo o jogo, mesmo que o esperasse durante os 90 minutos pode tornar um jogo ilegítimo aos olhos de quem o vê e inaceitável aos olhos de quem perde. Mas a utopia do duelo justo no fundo é a negação da luta. As grandes vitórias sempre foram as mais improváveis, as dos mais fracos, aquelas em que o embate puro é evitado inteligentemente.
É inequivoco que o formato clássico tipo taça é o mais leal ao espírito desportivo e propenso à emoção, à festa mais pura, e às histórias mais ídilicas. O mundo bodyboard ainda se rege por este principio e por isso podem ocorrer coisas implausíveis como na última etapa do mundial na Venezuela. O puto local Sergi Alonso protagonizou uma epopeia de david, tombando todos os gigantes no seu caminho e terminando com uma vitória que pôs em delirio as quase 3000 pessoas presentes na praia. O mais provável é que o franzino Sergi de apenas 50kg nunca mais ganhe nenhuma etapa mas ele teve o condão de fazer magia naquele momento. Ele tocou um hino ao desporto e ao bodyboard. Como num conto de Dickens naquele momento pareceu que todos os sonhos do mundo tem razão de ser.

É por estas

Muito se tem falado da nova geração e na verdade parece um processo interminável, há sempre uma nova geração, e outra que lhe sucede. O espírito que a acompanha é sempre o mesmo e todos passamos por lá, a afirmação. Não há como não admirar a juventude e a ambição, a força de querer rasgar a terra e fixar raízes.

Mas há conquistas que só vem com o tempo, muitas vezes sem dar por ela e sem forçar, a experiência e o traquejo. E finalmente há coisas que nem toda a vontade consegue suplantar, o talento.

Resultados da última etapa do circuito da Ericeira em ondas perfeitas de 2m, Pedra Branca:
1- Batata
2- Bruno Dias
3- João André
4- Estrela

sobre a fluidez II

Na verdade Jono era uma mistura entre Mike e Tamega e talvez uma da melhores demonstrações de beleza no bodyboard. Este é só um exemplo daqueles videos que deviam figurar em todos os sites de "waveriding".
No entanto como em qualquer desporto só é dado ao atleta uma determinada janela para se transcender. Ele escolheu outro caminho. Perdeu-se em tatuagens drogas e alcool.

sobre a fluidez

Quando dissertamos sobre um conceito ha que primeiramente cercear bem a taxonomia do que estamos a falar e apresentar a nossas razões. É um dos problemas da linguagem, terem significações diferentes e interpretações ambíguas. Fluidez para mim é fazer transições imaculadas de manobra para manobra, é fazer as manobras com a minima demonstração de esforço. Nao é ficar bem na fotografia e não é fluido quem faz uma manobra por onda. trata-se somente de movimento e ritmo. O estilo e power são ainda outras coisas. Os atletas mais fluídos curiosamente costumam ser os que mais manobras fazem por onda e no entanto fazem-nas parecer bem. De manobra para manobra tudo parece ganhar um sentido pela leitura perfeita da onda e uma abordagem quase musical à mesma. Sem pausas para pensar e com uma sintonia quase sensual com a onda. É fazer o mais dificil e extraordinario parecer mundano. Os exemplos mais correntes costumam ser Mike Stewart Ryan Hardy, Rui Ferreira ou Bajolo mas decidi deixar a demonstração mais paradigmática para o fim. Querem fluidez, Guilherme Tâmega.

e agora um pouco de história

Se não sabes quem é Tom Boyle corre para o site da vert e adquire um dos filmes mais classicos na história do bodyboard. Bem na verdade são 3 filmes num só DVD, e 3 marcos essenciais da imagem no bodyboard com todo o feeling do primórdios. Com Comentários do proprio Boyle, e das lendas Pat Caldwell, Jay Reale e JP Patterson. Essencial em qualquer prateleira.

campanhas

As coisas começam a aquecer na votação do convidado para o special edition 08.

musicas que gostava de ver num filme de body III

vertmag 82


Já saiu a edição deste mês da vertmag. Tenho lá um texto publicado do qual gosto até bastante. Ao ler o resto da revista dei por mim com a mesma ansiedade e excitação de há 10 anos atrás e quando sei que ela está nas bancas corro sempre a compra-la. Sou um miudo como os outros a lêr uma revista de bodyboard. Às vezes penso se as pessoas que trabalham com a vert verão a revista acabada com o mesmo entusiasmo juvenil que eu. É uma sensação única folhear uma revista nova nas mãos, cheirar o papel, saborea-la num sofá. Por mais internet que nos entre pelos olhos. Agora só daqui a 2 meses, bolas.

madrugadas


Por vezes sabe bem ser o primeiro a chegar à praia. E espremer todos os minutos disponíveis. Quando se conta os segundos os momentos ganham mais corpo, tornam-se mais reais. E o tempo dolorosamente efémero.

proxima estacion II


Tinha já um texto longo e elaborado sobre onde as manápulas do surfwear nao chegam e o bodyboard floresce: a periferia. Mas não tenho disposiçao hoje. Por vezes custa apenas criticar e vou deixar a foto falar por mim. Tirem as vossas conclusões, por vezes a obsessão com a imagem faz as pessoas afastarem-se do que realmente importa. Andar numa onda é mais essência nestes sitios mais remotos.

A escolha é apenas entre uma prancha em que se anda deitado nas ondas e outra de pé. Tão simples como isso. Mas à medida que saimos destes redutos somos bombardeados com novas informações. Que um dá estilo e outro não, que existe uma coisa chamada moda, e ainda roupas especiais para um desporto. Que existe tanta coisa fora de água que o acto real de descer uma onda é um processo cumulativo, e não de partida. Chega-se à onda já imensamente pesado.

factos: este ano na Venezuela não há nenhum WQS ou WCT de surf. Apenas um mundial de bodyboard que já se realiza ha três anos. O seu governo é conhecido por ter dificultado o capitalismo de mercado nos últimos anos.

proxima estacion

A proxima etapa do circuíto mundial é ja a seguir na Venezuela e terminará em grande nas ilhas Canárias, depois de etapas em Portugal, Chile, Espanha e.... esperem lá, o que está errado com esta imagem? O que aconteceu aos poderosos países do bodyboard, aos balofos agentes da imagem do desporto? Qual é o papel do bodyboard no primeiro mundo, terra do negócio e consumo? Talvez nisto da imagetica fútil eles sejam uns meninos comparados com.. (...) Voltarei a este assunto no proximo post.

PS: boa sorte aos tugas que nos vão representar na Venezuela: Centeno, Silvano, Jesus, Gastão, Pinheirinho. Temos razões para sonhar com a final.

só para contrariar

Já se sabe que a vingança é prato que se serve frio mas há coisas que devem saber melhor mesmo a quente. Que melhor exemplo disso do que o domínio avassalador do país Basco na ultima etapa do circuito Europeu em Anglet, França. Depois de terem sido confrontados com declarações de Pierre Costes na ultima movement em banca em que este afirmava que "apesar de possuirem boas ondas, os espanhois não sabiam surfar", eis que estes estraga festas decidem transformar o french bodyboard pro no spanish bodyboard pro preenchendo totalmente a final masculina e ainda pondo mais duas miudas (incluíndo a vencedora) no feminino. Conhecendo o julgamento tendencioso dos franceses como já presenciei, eles devem ter feito mesmo bonito para arredar os frogs dos podios. Será que o Pierre não tem também umas palavras de motivação para os portugas?
Para a historia fica a vitoria de Benat Elosua da nova geração basca e também um dos posters mais bonitos que já vi num campeonato Europeu.